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QUE FAMÍLIA ESTAMOS DEIXANDO PARA OS NOSSOS FILHOS?

Antes de culpar uma geração, talvez seja preciso perguntar quem a ensinou a viver

Por Ilton Hashimoto

INTRODUÇÃO — TALVEZ A PERGUNTA SEJA SOBRE NÓS

Se seu filho construir, amanhã, uma família exatamente como aquela que ele vê dentro da sua casa hoje, você ficará orgulhoso?

Não responda depressa.

Pense na forma como você ama. Na forma como discute. Na maneira como reage quando é contrariado. Pense no que acontece depois de uma separação e na forma como você se refere ao pai ou à mãe de seu filho quando essa pessoa não está presente.

Pense no tempo que oferece aos seus filhos e no tempo que entrega ao telefone.

Pense nas promessas feitas e não cumpridas. Nos finais de semana adiados. Nas mensagens enviadas no calor da raiva. Nas palavras que uma criança talvez nunca devesse ter ouvido.

E pense também nos recomeços.

Quando um pai ou uma mãe reconstrói sua vida afetiva, o novo companheiro compreende que encontrou uma pessoa que já possuía história, responsabilidades e vínculos que não desaparecerão?

Ou, silenciosamente, a criança começa a ser percebida como concorrente pela atenção e pelo afeto?

Em algum momento transformamos nossos próprios filhos em concorrentes pelo amor dos adultos?

E quando um relacionamento termina?

Termina somente o casamento ou, em alguns casos, termina também uma parcela da paternidade e da maternidade?

A resposta jurídica deveria ser elementar: o divórcio dissolve a conjugalidade, não a parentalidade. A doutrina do Direito das Famílias reconhece que a ruptura da relação entre os adultos não elimina os deveres existentes em relação aos filhos.

Talvez algumas das perguntas mais importantes sobre a família contemporânea comecem exatamente aí.

  1. O QUE A ADVOCACIA ME FEZ PERGUNTAR

Este artigo também nasce da minha experiência profissional.

Ao longo da advocacia, especialmente nos atendimentos e no acompanhamento de conflitos que posteriormente chegam aos tribunais, passei a observar situações que começaram a me inquietar.

Não apresento essas observações como pesquisa científica.

Não são estatísticas.

São percepções profissionais, construídas ouvindo pessoas e acompanhando as consequências jurídicas de relações humanas que se deterioraram.

Pais. Mães. Filhos. Casais que se separaram. Pessoas que reconstruíram suas vidas. Famílias tentando descobrir como continuar sendo família depois que o casal deixou de existir.

E, algumas vezes, pessoas que aparentemente já nem sabem exatamente por que continuam brigando.

Vejo conflitos que começaram por questões banais adquirirem proporções extraordinárias.

Um horário.

Um final de semana.

Uma fotografia.

Uma mensagem não respondida.

Uma viagem.

Um aniversário.

Um novo namorado.

Uma nova namorada.

Uma publicação em rede social.

De repente, uma criança que deveria estar preocupada em brincar, estudar e descobrir o mundo encontra-se no centro de uma batalha emocional pertencente aos adultos.

Foi observando situações como essas que comecei a formular uma pergunta:

em que momento deixamos de tentar resolver nossos conflitos e passamos a precisar vencê-los?

  1. QUANDO O FILHO SE TORNA O CAMPO DE BATALHA

Existe diferença entre proteger um filho e utilizá-lo para atingir alguém.

Existe diferença entre exercer autoridade parental e controlar.

Entre estabelecer limites e agredir.

Entre reconstruir a própria vida e abandonar responsabilidades anteriores.

E existe uma diferença fundamental entre o término da relação conjugal e o término da relação parental.

Ex-marido existe. Ex-esposa existe. Ex-filho não existe.

O pai pode deixar de ser marido daquela mulher.

A mãe pode deixar de ser esposa daquele homem.

Mas nenhum dos dois deixa de ser pai ou mãe em razão da sentença de divórcio.

A doutrina destaca a permanência das responsabilidades parentais mesmo quando os genitores deixam de conviver.

Parece óbvio.

Entretanto, aquilo que é evidente juridicamente nem sempre é simples emocionalmente.

E é justamente nessa distância entre o Direito e o sentimento humano que muitos conflitos começam.

  1. MÃES SOLO: CULPADAS OU SOBRECARREGADAS?

Precisamos enfrentar esse assunto sem preconceito.

Seria intelectualmente irresponsável afirmar que mães solo produzem filhos problemáticos ou adolescentes infratores.

Não existe fundamento sério para uma conclusão tão simplista.

Há mães criando praticamente sozinhas seus filhos porque alguém que deveria dividir responsabilidades simplesmente deixou de fazê-lo.

Há pais separados extremamente presentes.

Há famílias compostas por pai e mãe vivendo sob o mesmo teto em ambientes profundamente disfuncionais.

E existem famílias monoparentais que oferecem extraordinária estrutura emocional, educacional e moral.

Composição familiar não é sinônimo de qualidade familiar.

A própria concepção contemporânea de família reconhece sua pluralidade, inclusive a família monoparental.

Portanto, talvez a pergunta não seja:

“O que aconteceu com as mães solo?”

A pergunta deveria ser:

“Por que tantas mães terminaram exercendo praticamente sozinhas uma responsabilidade parental que deveria ser compartilhada?”

Isso desloca o debate da culpa para a responsabilidade.

  1. E QUANDO ESSA MÃE ENCONTRA OUTRA PESSOA?

Existe uma segunda situação que observo e que merece reflexão.

A mulher reconstrói sua vida.

Surge um novo relacionamento.

Às vezes, o antigo companheiro reage com ressentimento, hostilidade ou ofensas.

Em outros casos, aparece outro problema: o novo parceiro não consegue compreender integralmente que aquela mulher já possuía uma relação afetiva anterior que jamais desaparecerá — a relação com seu filho.

É preciso dizer algo elementar:

uma criança não é concorrente afetiva de um adulto.

O amor conjugal e o amor parental não ocupam a mesma cadeira.

Quem decide estabelecer uma relação com alguém que já possui filhos não está entrando em uma história que começa naquele encontro. Existem vínculos anteriores, responsabilidades anteriores e pessoas que não podem simplesmente ser apagadas.

As chamadas famílias recompostas apresentam justamente multiplicidade de vínculos, reorganização de papéis e relações de interdependência.

Por isso, talvez uma das demonstrações mais importantes de maturidade afetiva seja compreender:

amar alguém que possui filhos significa respeitar também a responsabilidade que essa pessoa possui perante eles.

  1. QUEM ESTÁ EDUCANDO NOSSOS FILHOS?

Maria Berenice Dias apresenta a família como primeiro agente socializador do ser humano.

Essa afirmação precisa ser levada a sério.

Porque, se a família é o primeiro ambiente de socialização, então nela começam muitas das primeiras experiências humanas relacionadas a limite, respeito, frustração, responsabilidade, convivência e compromisso.

Mas a família já não educa sozinha.

Hoje uma criança é formada simultaneamente pela família, escola, amigos, comunidade, televisão, internet, redes sociais, influenciadores e algoritmos.

E então surge uma pergunta difícil:

quem está ocupando o espaço que os adultos deixam vazio?

Quando pai e mãe não conversam, alguém conversa.

Quando não ensinam, alguém ensina.

Quando não estabelecem valores, outros valores chegam.

Quando não oferecem pertencimento, algum grupo pode oferecê-lo.

A questão não é defender o retorno a uma família autoritária.

Autoridade não significa autoritarismo.

Educar não significa humilhar.

Impor limites não significa violentar.

A missão constitucional e jurídica dos pais envolve assistência, criação e educação, e a doutrina relaciona essa responsabilidade ao desenvolvimento integral da criança.

Talvez tenhamos confundido, em algum momento, evitar frustrações com proporcionar felicidade.

E uma criança que nunca aprende a administrar um “não” dentro de casa continuará encontrando “nãos” fora dela.

A escola dirá não.

Um relacionamento dirá não.

O mercado de trabalho dirá não.

A sociedade dirá não.

E, em determinadas circunstâncias, o Estado dirá não.

  1. UMA GERAÇÃO ACOSTUMADA AO “AGORA”

Essa discussão encontra o artigo anterior, “A Geração que Ri da Justiça Até Virar Réu”.

Vivemos numa sociedade em que quase tudo se tornou imediato.

A comida chega.

O filme começa.

A compra acontece.

A mensagem é entregue.

O relacionamento começa por uma tela e pode terminar por outra.

Uma fotografia é publicada e imediatamente recebe aprovação ou rejeição.

Não afirmo que a tecnologia tenha criado uma geração incapaz de lidar com frustrações.

Seria uma simplificação.

Mas considero legítimo perguntar se uma cultura construída sobre recompensas cada vez mais rápidas está modificando nossa relação com espera, compromisso e frustração.

Schopenhauer, muito antes dos smartphones, já refletia sobre a natureza insaciável do desejo humano: a satisfação de um desejo frequentemente abre espaço para outro.

Ele evidentemente não estava escrevendo sobre a Geração Z.

Mas sua reflexão filosófica nos oferece uma lente interessante para uma sociedade baseada em estímulo permanente.

Talvez nossa época não tenha inventado o desejo.

Talvez apenas tenha construído a máquina mais eficiente da história para alimentá-lo continuamente.

  1. O QUE NOSSOS FILHOS APRENDEM NOS OBSERVANDO?

A psicologia social torna essa discussão ainda mais interessante.

Aronson e Aronson abordam influência social, aprendizagem social, agressividade, insegurança, relacionamentos e mecanismos de interpretação do comportamento.

Os autores também demonstram como diferentes concepções sobre o relacionamento amoroso influenciam a maneira pela qual as pessoas enfrentam seus conflitos. Algumas percebem o relacionamento como construção; outras podem interpretar a própria existência do conflito como sinal de fracasso.

E isso nos devolve à família.

Uma criança não aprende apenas quando alguém senta à mesa e diz:

“Agora vou lhe ensinar alguma coisa.”

Ela observa.

Observa como o pai trata a mãe.

Como a mãe trata o pai.

Como os adultos tratam funcionários.

Como falam dos avós.

Como reagem quando perdem.

Como cumprem promessas.

Como pedem desculpas.

Como lidam com dinheiro.

Como enfrentam uma separação.

Como tratam alguém que deixou de amá-los.

Talvez nossos filhos aprendam muito mais sobre relacionamentos assistindo aos nossos relacionamentos do que ouvindo nossos discursos sobre eles.

  1. UMA PERGUNTA QUE A BÍBLIA JÁ FAZIA ENTRE GERAÇÕES

Independentemente da crença religiosa do leitor, seria difícil discutir a construção cultural da família ocidental ignorando a influência bíblica.

Não utilizo a Bíblia como prova científica de criminalidade ou comportamento.

Utilizo-a como fonte histórica, cultural e moral acerca da responsabilidade entre gerações.

Em Deuteronômio 6, a transmissão dos ensinamentos aos filhos é apresentada como algo incorporado à rotina familiar.

A ideia é poderosa porque transforma educação em continuidade.

Uma geração recebe.

Uma geração pratica.

Uma geração transmite.

Portanto, nossa pergunta passa a ter uma dimensão ainda maior:

o que estamos transmitindo?

Somente patrimônio?

Sobrenome?

Imóveis?

Fotografias?

Ou também transmitimos maneiras de amar, reagir, perdoar, odiar, respeitar e assumir responsabilidades?

  1. QUANDO SAÍMOS DA OPINIÃO E OLHAMOS PARA OS DADOS

Aqui precisamos abandonar qualquer tentação de construir conclusões convenientes.

Os dados brasileiros mais recentes não permitem afirmar que determinada estrutura familiar “produza” criminalidade.

Também não autorizam dizer que a Geração Z seja simplesmente uma geração criminosa.

O Levantamento Nacional do SINASE 2025 registrou 12.203 adolescentes e jovens em medidas de restrição ou privação de liberdade no período de referência, sem os dados de Minas Gerais. Roubo e tráfico correspondiam, juntos, a 57% dos atos infracionais registrados, sendo 29,1% relacionados ao roubo e 27,9% ao tráfico.

É um dado importante.

Mas ele não nos diz sozinho por que esses adolescentes chegaram ao sistema.

E é justamente o “por quê” que interessa neste artigo.

  1. O QUE MATO GROSSO DO SUL NOS MOSTRA

Uma pesquisa acadêmica realizada no âmbito da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul analisou a realidade da UNEI Dom Bosco, em Campo Grande, utilizando registros relativos ao sistema socioeducativo.

Trata-se da dissertação Ditos e interditos no dispositivo socioeducativo, de Simone Grisolia Monteiro, defendida no Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFMS em 2019.

Na população estudada, o roubo representou aproximadamente 32,3% dos motivos registrados, seguido do tráfico de drogas, com 17,9%. Homicídio aparecia em torno de 10%, além de furto, receptação, tentativa de homicídio, porte ilegal de arma e outras ocorrências.

Roubo e tráfico, portanto, representavam aproximadamente metade dos registros daquela população específica.

Mas existe outro dado especialmente importante.

A pesquisa também encontrou grande defasagem educacional entre os adolescentes analisados, com forte concentração no ensino fundamental incompleto.

Isso nos obriga a ampliar a pergunta.

Não podemos perguntar apenas:

“Onde estava a família?”

Precisamos perguntar:

Onde estavam a família, a escola, a comunidade e o Estado antes de esse adolescente chegar ao sistema socioeducativo?

A própria pesquisa trabalha criticamente a institucionalização e os mecanismos sociais que cercam a juventude submetida às medidas socioeducativas.

Esse cuidado é fundamental.

Porque é muito fácil procurar um culpado depois que tudo aconteceu.

Difícil é reconstruir a trajetória.

  1. PAIS SEPARADOS NÃO PRODUZEM CRIMINOSOS

Esse ponto merece um capítulo próprio porque não quero que este artigo seja utilizado para sustentar uma conclusão que ele não sustenta.

Estudos criminológicos internacionais encontram associações entre determinadas condições familiares e delinquência juvenil, mas a literatura mostra que processos familiares, como supervisão, vínculos, conflitos, disciplina e contexto socioeconômico, são fundamentais para compreender essas associações.

A criminologia também demonstra que comportamento desviante não pode ser explicado por uma única variável.

Juarez Cirino dos Santos, ao tratar das explicações sociológicas da criminalidade, chama atenção para estruturas sociais, desigualdade e anomia, afastando explicações simplistas baseadas exclusivamente no indivíduo.

Nestor Sampaio Penteado Filho e Eron Gimenes também situam a criminologia moderna na análise dos controles formais e informais e das diversas explicações sociais do comportamento desviante.

Portanto:

pai ausente pode ser fator relevante.

Conflito familiar pode ser fator relevante.

Falta de supervisão pode ser fator relevante.

Pobreza pode compor o contexto.

Abandono escolar pode compor o contexto.

Pares podem influenciar.

Território pode importar.

Drogas podem importar.

Mas nenhuma dessas variáveis, isoladamente, nos autoriza a olhar para uma criança e prever seu destino.

Risco não é sentença.

  1. E NÓS, ADVOGADOS, O QUE FAZEMOS COM O CONFLITO?

Existe outra responsabilidade que precisa ser discutida.

A nossa.

Em determinadas situações, o advogado é uma das últimas pessoas capazes de impedir que uma divergência administrável se transforme numa guerra judicial.

Naturalmente existem situações em que litigar energicamente é indispensável.

Violência doméstica, abuso, ameaça, negligência e violações de direitos exigem proteção e resposta firme.

Mas nem toda divergência é violência.

Nem toda provocação precisa produzir uma contrarreação processual.

Nem toda mensagem merece uma petição.

E nem todo cliente precisa de alguém que simplesmente confirme tudo aquilo que ele deseja ouvir.

Às vezes, a função mais difícil do advogado é dizer:

“Isso não ajudará você nem seu filho.”

Virgilio Ruiz Rodríguez sustenta que o profissional do Direito não deveria contentar-se exclusivamente com encontrar uma solução juridicamente possível, mas deveria buscar também uma solução justa e comprometida com a pacificação das relações.

Por isso, considero necessária uma pergunta dentro da própria advocacia:

ESTAMOS SOLUCIONANDO O CONFLITO DO CLIENTE OU APENAS TORNANDO JURIDICAMENTE SOFISTICADA A SUA RAIVA?

Defender firmemente alguém não exige transformar o adversário em inimigo.

Especialmente quando, depois que os advogados forem embora e o processo terminar, duas pessoas ainda precisarão continuar sendo pai e mãe da mesma criança.

  1. QUANDO A FAMÍLIA NÃO ENSINA O PRIMEIRO “NÃO”

Aqui chegamos ao ponto mais delicado.

O Direito Penal e o sistema socioeducativo normalmente aparecem depois.

Depois da formação.

Depois da infância.

Depois da escola.

Depois das primeiras frustrações.

Depois das primeiras escolhas.

Depois de inúmeras oportunidades de intervenção.

O processo entra quando um fato juridicamente relevante já aconteceu.

E então o Estado apresenta uma consequência.

Salo de Carvalho adverte sobre a expansão da vontade de punir, o populismo punitivo e a centralidade assumida pela prisão nas respostas contemporâneas aos conflitos sociais.

Punir mais não significa necessariamente formar melhor.

Uma cela é uma péssima sala de aula.

Talvez por isso prevenção não possa começar na delegacia.

Precisa começar muito antes.

Família.

Escola.

Comunidade.

Saúde.

Assistência social.

Oportunidade.

Responsabilidade.

Presença.

Limite.

Afeto.

E consequência.

  1. MAS QUEM FORMOU A GERAÇÃO QUE AGORA CRITICAMOS?

Falamos muito sobre a Geração Z.

“Não querem compromisso.”

“Não toleram frustração.”

“Querem tudo imediatamente.”

“Não respeitam autoridade.”

“Vivem no celular.”

Mesmo quando alguma dessas percepções encontra respaldo em determinados contextos, existe uma pergunta que raramente fazemos:

QUEM OS CRIOU?

A Geração Z não apareceu espontaneamente.

Foi educada por uma geração anterior.

Recebeu smartphones de adultos.

Foi colocada diante das telas por adultos.

Aprendeu padrões de consumo produzidos por adultos.

Viu relacionamentos adultos.

Assistiu a separações adultas.

Absorveu nossas prioridades.

E talvez agora estejamos olhando para o resultado e perguntando:

“Que geração é essa?”

Quando uma pergunta anterior poderia ser:

“Que adultos fomos nós?”

Isso não elimina a responsabilidade individual de um jovem por suas escolhas.

Responsabilidade não desaparece porque existem condicionantes sociais.

Mas compreender uma trajetória é diferente de desculpar um comportamento.

Explicar não significa absolver.

  1. E AGORA ESSA GERAÇÃO COMEÇARÁ A EDUCAR A PRÓXIMA

Aqui está, para mim, a pergunta mais importante deste artigo.

Uma geração educada dentro da hiperconectividade, da velocidade, das relações digitais e de transformações profundas na estrutura familiar está entrando progressivamente na parentalidade.

O que ela transmitirá?

Não sabemos.

Qualquer resposta definitiva seria especulação.

Mas podemos perguntar.

Se compromisso se tornou mais difícil, como ensinaremos compromisso?

Se toleramos menos frustração, como ensinaremos nossos filhos a perder?

Se relacionamentos são cada vez mais descartáveis, como ensinaremos permanência?

Se não conseguimos deixar o telefone durante uma refeição, como ensinaremos presença?

Se transformamos toda discordância em ofensa, como ensinaremos diálogo?

Se precisamos sempre encontrar um culpado, como ensinaremos responsabilidade?

E, principalmente:

se nossos filhos aprenderem exatamente aquilo que fazemos — e não aquilo que dizemos — o que estaremos ensinando?

CONCLUSÃO — TALVEZ A FAMÍLIA NÃO TENHA FALIDO

Começamos perguntando sobre nossos filhos.

Terminamos falando sobre nós.

Talvez isso não seja coincidência.

Depois de observar conflitos na advocacia, estudar o Direito das Famílias, olhar para a psicologia, para a criminologia, para o sistema socioeducativo e para uma tradição moral que atravessa gerações, não me parece intelectualmente correto concluir simplesmente:

“A família faliu.”

A família mudou.

A sociedade mudou.

Os relacionamentos mudaram.

A tecnologia mudou.

As formas de autoridade mudaram.

Os papéis de homens e mulheres mudaram.

Mas talvez exista algo que não possa mudar sem consequências:

a responsabilidade de uma geração pela formação da próxima.

Não importa se a família possui pai e mãe casados.

Pais divorciados.

Mãe solo.

Pai solo.

Padrasto.

Madrasta.

Família recomposta.

O formato não responde sozinho à pergunta essencial.

Que relações existem dentro dela?

Existe presença?

Existe respeito?

Existe responsabilidade?

Existe limite?

Existe afeto?

Existe exemplo?

Talvez a crise da família não possa ser medida pelo número de divórcios.

Talvez comece quando adultos deixam de assumir a responsabilidade de formar outros seres humanos.

Porque toda geração educa a próxima.

Inclusive quando decide não educá-la.

E nossos filhos não herdarão apenas nossos imóveis, nosso patrimônio, nossos sobrenomes e nossas fotografias.

Eles poderão herdar também a maneira como nos viram amar.

Discutir.

Perder.

Perdoar.

Separar.

Recomeçar.

Cumprir promessas.

Respeitar.

Assumir responsabilidades.

E é por isso que, depois de todas as páginas, dados e teorias, resta apenas uma pergunta.

A mesma com que começamos.

Mas talvez agora ela seja um pouco mais difícil de responder:

SE SEU FILHO REPETIR AMANHÃ A FAMÍLIA QUE VOCÊ CONSTRUIU HOJE, VOCÊ FICARÁ ORGULHOSO?

Não precisa responder para mim.

Responda para ele.

REFERÊNCIAS

ARONSON, Elliot; ARONSON, Joshua. O animal social. Obra utilizada para a discussão de influência social, agressividade, relacionamentos, autojustificação, aprendizagem social e administração de conflitos.

BÍBLIA SAGRADA. Deuteronômio 6. Utilizada neste artigo como fonte histórico-cultural e moral para a discussão da transmissão intergeracional de valores e responsabilidades, e não como demonstração científica de causalidade.

CARVALHO, Salo de. O papel dos atores do sistema penal na era do punitivismo. Utilizado na análise da expansão punitiva e da centralidade da prisão nas respostas contemporâneas aos conflitos sociais.

DIAS, Maria Berenice. Manual de Direito das Famílias. Utilizado especialmente nas discussões sobre pluralidade familiar, socialização, responsabilidades parentais e famílias recompostas.

MONTEIRO, Simone Grisolia. Ditos e interditos no dispositivo socioeducativo. Campo Grande: Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, 2019. Dissertação de Mestrado em Psicologia.

PENTEADO FILHO, Nestor Sampaio; GIMENES, Eron Veríssimo. Criminologia. Utilizado para a compreensão dos mecanismos formais e informais de controle social e das explicações criminológicas do comportamento desviante.

RODRÍGUEZ, Virgilio Ruiz. Filosofia do Direito. Utilizado na discussão da função do profissional do Direito, da relação entre solução jurídica, justiça e pacificação social.

SANTOS, Juarez Cirino dos. Criminologia: contribuição para crítica da economia da punição. Utilizado especialmente nas discussões sobre estrutura social, desigualdade, anomia e explicações sociais da criminalidade.

SCHOPENHAUER, Arthur. O vazio da existência. Utilizado como referência filosófica para a reflexão sobre desejo, satisfação e sua renovação permanente.

BRASIL. Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania. Levantamentos Nacionais do SINASE. Brasília: MDHC. A página oficial reúne os levantamentos de 2023, 2024 e 2025. Levantamentos Nacionais do SINASE — fonte oficial

MATO GROSSO DO SUL. Secretaria de Estado de Assistência Social e dos Direitos Humanos. Observatório SUAS. Disponibiliza, entre as pesquisas acadêmicas, Ditos e Interditos no Dispositivo Socioeducativo. Observatório SUAS de Mato Grosso do Sul

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